terça-feira, 30 de novembro de 2010

TGV: Sim ou não? Porquê?

3 linhas, 3 novos percursos e milhões de euros em investimento. Assim se traduzem os projectos do TGV em Portugal que querem ligar Lisboa – Madrid, Porto – Vigo e Lisboa – Porto. São projectos que envolvem inúmeros estudos, inúmeros cálculos e sobretudo verbas que neste momento são impossíveis de incluir no Orçamento de Estado. Com a crise económica e financeira instalada, os mercados em queda e a especulação de ter o FMI à porta, Portugal não pode de forma alguma prosseguir para projectos desta envergadura. No curto prazo, os três percursos pesam demasiado na carteira do Estado português. Pensando mais além, a longo prazo, num momento de retoma económica em que é necessário investir na rede de transportes, para promover o desenvolvimento nacional, a linha que pretende ligar Lisboa a Madrid poderá ser equacionada novamente.
Começando a reflexão pela linha que diz respeito apenas ao território português, Lisboa – Porto. Esta linha envolve custos de aproximadamente 4,5 mil milhões de euros, numa extensão de 292km que ligariam as duas cidades mais importantes do país. No entanto a ligação entre estas duas cidades já existe por meio ferroviário, através do comboio alfa pendular ou intercidades. O alfa pendular, comboio de velocidade elevada, tem capacidade para atingir os 220km/h, porém com as actuais condições da linha ferroviária que une Lisboa e Porto, ronda apenas os 100km/h. Assim, a principal linha ferroviária portuguesa possui um aproveitamento reduzido a metade da sua capacidade, pelo que seria de carácter mais económico, a realização de obras de recuperação da linha, habilitando-a para receber comboios alfa pendular no seu desempenho máximo. Uma viagem que a 100km/h actualmente demora cerca de 2h30, poderia resumir-se a pouco mais de 1h30. Acontece que as estimativas feitas pelos estudos do TGV, estimam que com a construção do comboio de alta velocidade a viagem teria a duração de cerca de 1h15. Cerca de 15/20 minutos de diferença, mas em que não podemos esquecer os custos que as respectivas viagens envolvem (em TGV serão 40€/pessoa). A construção do TGV requer mais meios económicos, e consequentemente terá um maior custo para o utilizador relativamente ao alfa pendular.
A ligação Porto-Vigo também é actualmente garantida duas vezes por dia pela CP. Para esta ligação a CP faz programas turísticos específicos de forma a cativar os habitantes Portuenses a visitar a cidade espanhola. Pergunto-me agora: Se a CP tem necessidade de fazer estes programas e apenas faz a ligação duas vezes por dia, justificará um investimento de 1,4 mil milhões de euros, sendo que o custo da viagem para o utilizador será substancialmente maior? Uma ligação que reserva muitas dúvidas na relação do investimento e do posterior lucro.
Por fim a ligação Lisboa – Madrid, a mais discutida e talvez a única que possa ser aceite a longo prazo. Esta ligação tem uma extensão de 203km em território português e tem um investimento de cerca de 2,4 mil milhões de euros. Na actual conjuntura económica, é uma obra pública que deve ser colocada na gaveta. Num contexto de retoma económica, esta ligação poderá ser benéfica para ambos os países. Debate-se muito a questão do transporte de mercadorias, incentivando as exportações, porém temos que ter em conta que o poder de exportação espanhol é superior ao português e assim esta linha poderá levar a que mais produtos espanhóis substituam os produtos portugueses. Esta linha atravessa o território português de Oeste a Este através das planícies alentejanas, tendo a sua primeira paragem em Évora. Uma linha que poderá ser um factor de desenvolvimento da região alentejana, principalmente em termos de turismo. Falo apenas em turismo porque considero que os custos que envolvem as viagens em TGV (estimativa de 100€ por pessoa neste troço) não estejam ao alcance de qualquer um, e por isso mesmo a população alentejana certamente não viajará em grande número para Madrid ou Lisboa. Sendo que neste último caso o serviço é garantido pela CP (neste momento a via está em obras de requalificação) com um custo menor. O turismo alentejano poderá ser beneficiado na medida em que a população madrilena (principal cidade espanhola do troço onde passa o TGV – as restantes são Cáceres e Mérida) tem rendimentos superiores aos alentejanos e terá maior oportunidade para visitar esta região. Nesta linha há que ter em conta que a sua construção se divide em dois troços (Lisboa – Poceirão e Poceirão-Caia), pela necessidade de construir uma terceira travessia sobre o rio Tejo, em Lisboa, que possa levar o TGV de uma margem para outra, de forma a ligar as duas capitais ibéricas.
Depois da reflexão sobre os 3 troços previstos, a minha principal conclusão prende-se com o investimento e o retorno económico que o TGV poderá ou não trazer. Com a alta concorrência das companhias aéreas LowCost, é preciso reflectir no facto de existirem voos que são logicamente mais rápidos e são mais económicos para o utilizador, do que o comboio de alta velocidade. O factor da concorrência poderá ser determinante para o estudo da importância do TGV em Portugal. No que toca ao utilizador penso que a vantagem do TGV é nula, já que muitos voos aéreos fazem as mesma ligações de forma mais económica. Porém, quanto á mercadoria poderemos fazer o raciocínio de outra forma. O transporte de mercadorias por via aérea é muito limitado e dispendioso pelo que o TGV seria um bom aliado à exportação portuguesa. Porém sabemos que a necessidade de importação em Portugal, é superior à exportação e como tal a criação destas linhas poderá ser um incentivo à introdução de produtos estrangeiros no mercado português. Considerando o custo do transporte de mercadoria via TGV, é mais económico que por via aérea, mas certamente mais caro do que por comboio de mercadorias. Assim também no caso das mercadorias é bastante discutível já que ao aumentar o preço de transporte, aumentaremos o preço de mercado final do produto.
Sumariamente, na minha opinião, o TGV é uma realidade que não é um ponto estruturante da actualidade portuguesa, quer devido à conjuntura económica quer pelas infra-estruturas que dispomos e são mal aproveitadas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Economia Paralela em Portugal

O conceito de economia paralela é frequentemente associado aos países menos desenvolvidos, onde persistem sistemas fiscais que têm pouco controlo nas actividades económicas desenvolvidas no seu país. Porém ao contrário do que seria expectável, segundo estudos recentes realizados pelo professor austríaco Friedrich Schneider, na Europa são países como a Grécia, Itália, Espanha e Portugal que lideram a tabela dos países com maior percentagem de economia paralela. A Grécia ocupa a primeira posição, sendo que a economia paralela representa 25,2% do seu PIB, seguida da Itália (22,2%) e da Espanha (19,8%). Segundo este mesmo estudo, Portugal ocupa a 4ª posição, sendo que a economia paralela corresponde a 19,7% do PIB oficial, claramente acima da média da OCDE (14%).
No início desta década, a economia paralela em Portugal assistiu a uma regressão de cerca de 4 pontos percentuais (em 1999 encontrava-se perto dos 23% - ilustração através do gráfico 1) que se ficará a dever a um forte crescimento e incentivo da economia oficial. Chegados ao ano de 2008 e ao início da actual crise económica e financeira, a economia paralela retomou o seu crescimento, ultrapassando a barreira dos 20%. Actualmente a economia paralela representa cerca de 33 mil milhões de euros, o que chega a ultrapassar o dobro do maior défice orçamental alguma vez registado em Portugal. Tiago Cavalcanti, professor da Universidade de Cambridge, compara a economia paralela em momentos de crise a um autêntico colchão. Esta afirmação deve-se ao facto de em momentos de crise, o desemprego aumentar e consequentemente existirem mais pessoas a criar os próprios pequenos negócios. Desta forma, os pequenos negócios, contribuem para o aumento das actividades informais e evasão fiscal. Pode considerar-se que a economia paralela é uma compensação da diminuição dos rendimentos obtidos através da economia oficial.




Gráfico 1 – Dimensão da Economia Paralela no período 1999-2003 (Relação entre a Corrupção e a % de economia paralela em relação ao PIB)


Tendo em conta o desenvolvimento nacional, a economia paralela deveria ficar sempre abaixo de 15% do PIB, sendo que acima desta taxa se considera uma prática excessiva de economia paralela. Ambicioso e ideal seria diminuir até níveis idênticos aos dos Estados Unidos da América, que apresentam uma taxa de apenas 10% de economia paralela, em relação ao PIB.
No nosso país os factores que contribuem em grande medida para o aumento da economia paralela são a evasão fiscal, a fraude e também a contrafacção. A responsabilidade do aumento da fraude e da evasão fiscal (gráfico 2 e 3), atribui-se frequentemente às altas taxas de impostos praticadas em Portugal. A acumulação de taxas como IVA, IRC e as demais tributações, levam a que muita da actividade económica realizada em Portugal não seja declarada. Um dos principais problemas na evasão fiscal prende-se com a falta de declaração de produção legal, de modo a diminuir os contributos para a segurança social e o pagamento de IRC. Perante as altíssimas taxas contributivas aplicadas pelo sistema económico às empresas, muitos são os empresários que por esse país fora procuram mecanismos, habitualmente de índole ilegal, para que possam reduzir as suas despesas e contribuições para o Estado. Um dos grandes mecanismos de desvio de dinheiro proveniente da produção é o branqueamento de capitais. Este é um flagelo que afecta a economia em qualquer parte do Mundo, porém aumenta também em momentos de crise económica e financeira. As crises económicas que ao longo dos tempos afectaram o Mundo, estão intimamente relacionadas com o branqueamento de capitais, na medida em que nesta altura devido à diminuição dos rendimentos oficiais, as pessoas encontram outros mecanismos para a aumentarem os seus rendimentos e não podem declarar esses dinheiros de forma oficial, nem cruzá-los nas suas contas bancárias habituais. É contra o branqueamento de capitais, que o Banco de Portugal realiza uma grande acção em parceria com os sistemas de Finanças. O cruzamento de dados é hoje em dia uma das grandes armas contra a economia paralela e o próprio branqueamento de capitais. Quanto à contrafacção, já referida como constituindo uma parte significativa da economia paralela, é importante referir que este tipo de actividade ilícita representa cerca de 7% das trocas mundiais. Enquanto antigamente esta actividade afectava apenas bens de luxo, na actualidade interfere nos mais diversos tipos de bens e indústrias (moedas, notas, têxteis, automóveis, produtos farmacêuticos, alimentação, tabaco, jogos, aparelhos de entretenimento, equipamentos digitais, …). A contrafacção acarreta prejuízos no plano empresarial, já que gera uma grande quebra nas receitas e na produção; no plano do consumidor, pode colocar em perigo a saúde e segurança dos consumidores; e no plano do Estado, é considerada como economia paralela, o que gera perda de receita fiscal, redução de investimento e crescimento económico, aumento do desemprego e clandestinidade. Quanto à contrafacção de notas e moedas existe um dano acrescido, já que todos os bens trocados por dinheiro contrafeito, trazem prejuízo na totalidade ao vendedor, pois o dinheiro recebido tem um valor nulo em relação ao bem produzido.
No dia-a-dia de qualquer cidadão, cada vez mais nos podemos deparar com a pergunta “Quer com factura? Ou sem factura?”. Nestes casos, a consciência moral diria que esta era uma conduta ilegal, e como tal deveria ser denunciada. Mas no que toca à Economia, a consciência moral de pouco vale, já que para tanto o produtor como o consumidor tiram benefício do facto de não declararem aquela transacção, através de uma factura. A verdade é que a economia paralela se passa à frente dos nossos olhos e nós não a queremos ver. Quando é preciso um pequeno “biscato” em casa, chama-se o vizinho ou remenda-se com o que há em casa. Muitas vezes praticamos economia paralela de forma quase involuntária, já que muitas das pequenas actividades diárias praticadas pela população, geram produção que não é de forma alguma tributada.



Gráfico 2 – Impostos detectados em falta entre 2006 e 2008


Gráfico 3 – Impostos detectados em falta, consoante o seu tipo


Desde 1999 que a Comissão Europeia, procura uma resolução para que as actividades ilegais possam ser contabilizadas no PIB. O Sistema Europeu de Contas, inclui nos seus regulamentos a inclusão das actividades legais na medição da riqueza produzida por um país, no entanto nenhum país realiza estimativas explícitas e concretas relativamente a estas actividades. Em 2006, quando a Grécia reviu as suas contas nacionais, querendo nelas incluir as actividades informais e ilegais, esta questão voltou a ganhar forma, já que neste ano a Grécia fez o seu PIB crescer 25%, contas estas que foram validadas pelo Eurostat. Durante o ano de 2009, foram apresentadas várias propostas neste sentido, pelo que em data ainda a definir, algumas actividades ilegais, como a prostituição, o tráfico de droga, o contrabando e o jogo clandestino, vão ser incluídas no Produto Interno Bruto. No entanto, mesmo que estas actividades sejam incluídas no cálculo do PIB, a Contabilidade Nacional continuará a ter lacunas e limitações, já que temos materiais que são vendidos de forma legal, que posteriormente são utilizados para produções ilegais (é o caso do cimento vendido quer para construções legais ou ilegais). Assim, mesmo com a inclusão da economia paralela na riqueza produzida por um país, o seu PIB será sempre alvo de alguma incerteza e terá alguma riqueza repetida e outra por contar.
Por último é necessário ressalvar o combate à economia paralela que é feito pelos governos. Tratando-se de um obstáculo à inovação e competitividade, a economia paralela tem sido combatida nos últimos anos com medidas como a reformulação do financiamento da actividade económica. Assim é sumariamente necessário que o Estado realize acções de fiscalização de empresas nos seus vários domínios (trabalhadores, produção, vendas, compras, lucros,…); reformulação das tributações aplicadas de modo a criar mecanismos de incentivo à actividade económica oficial; e ainda promover o financiamento das actividades económica, de modo a fixar as empresas e desenvolvê-las, combatendo a venda de produção por circuitos paralelos, para que seja possível dinamizar a competitividade e inovação empresarial.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Vídeo da Intervenção no XVII Congresso Nacional da JS

video

Intervenção no XVII Congresso Nacional da JS, no ponto de discussão da Moção Global de Estratégia "Transformar à Esquerda".

domingo, 14 de novembro de 2010

Moção Sectorial: "A Cidadania e Participação Cívica no Ensino Básico e Secundário"

Moção Sectorial por mim apresentada ao XVII Congresso Nacional da JS e ontem discutida e aprovada por unanimidade na Comissão Nacional da JS.
Car@s Camaradas,
Nos dias que correm cada vez mais se assiste ao envelhecimento dos políticos activos e ao desinteresse dos jovens, nos assuntos sociais e políticos. Este é um facto com o qual, nós jovens socialistas, lidamos diariamente. Muitos dos políticos que actualmente nos rodeiam, já não conseguem dar resposta às necessidades impostas pela evolução tecnológica e social da sociedade. Por seu lado, no ramo tecnológico, a juventude sobressai. Peca, porém no seu interesse cívico e político.
Nós, jovens socialistas, temos padrões definidos. Seguimos a ideologia socialista, temos valores e objectivos definidos, temos uma visão clara do nosso papel e da nossa posição enquanto jovens. Porém somos uma verdadeira minoria, nesse grande universo dos 14 aos 30 anos. Sendo realistas, a política é um dos grandes problemas dos jovens. Funciona como um mito, na qual não encontram qualquer elemento com que se possam identificar. Tomam a política como um assunto desinteressante e maçudo, no qual não se revêem pelas mais variadas razões. Cabe-nos a nós, como juventude partidária, devidamente elucidada para esta questão, contorná-la, indo à sua raiz.
Desde o Ensino Básico ao Secundário, os jovens passam cerca de 8 a 9 horas diárias na escola. Todas estas horas são preenchidas por currículos disciplinares específicos das matérias em estudo, aos quais não retiramos qualquer importância. São desenvolvidas competências ao nível do saber e descura-se o foro psico-social. A formação enquanto pessoa, que deve ser iniciada em casa, é esquecida pela maioria das escolas e docentes. A partir do 5ºano de escolaridade, os alunos têm 45 minutos semanais do seu currículo, dedicados à Formação Cívica. Mas agora, digam-me, estes breves 45 minutos são realmente dedicados à formação de cidadãos? É um facto muito raro. Jogos, conversas ou conteúdos descontextualizados são abordados para que o tempo passe. Os próprios docentes não sabem ao certo o que devem fazer nestas aulas. Isto repete-se ao longo de 5 anos, nos quais se assiste ao crescimento de jovens alheios aos problemas do Mundo. E chegados ao 10ºano, não há nada que obrigue os alunos a reflectir, a pensar quem são afinal, o que querem da sua vida, o que se passa à sua volta. É tão triste para um jovem, como nós socialistas, assistir à certa ignorância que paira nos jovens das Escolas Secundárias. No Ensino Secundário certamente que não é a disciplina de Filosofia que tornará os jovens pessoas civilizadas. É necessária uma área curricular destina ao incentivo da participação cívica e política. Aquilo que necessitamos, são jovens racionais, que dignifiquem o ensino, a sociedade e sobretudo o país. Os jovens de hoje serão os governantes de amanhã, e se hoje em dia as críticas são duras e a descredibilização é enorme, se não agirmos rapidamente, o futuro será ainda pior. Os jovens demonstram frequentemente desprezo pelos símbolos da nação e pela sociedade. Não se trata de marginais, trata-se sim de jovens nos quais a cidadania não é incutida, e nos quais as regras das vivências em sociedade não são promovidas.
Países do norte da Europa, como a Finlândia ou a Noruega, têm cargas horárias bastante inferiores às dos alunos portugueses, sendo que desta formam incentivam os seus jovens à prática de actividades extra-curriculares que desenvolvam as suas capacidades físicas e sobretudo psíquicas. No sistema educativo português, isto é quase impossível, pois o pouco tempo que resta livre, é ainda ocupado por trabalhos de casa. Assim, já que os alunos não podem receber a formação enquanto cidadãos e pessoas de outra forma, cabe às escolas integrá-la nos seus programas.
Somos uma estrutura composta por jovens, que têm objectivos definidos. Procuramos acima de tudo igualdade e preocupamo-nos com o estado da sociedade, do país e do Mundo. Sabemos que nem todos os jovens pensam como nós, e nem todos se importam com o que está à sua volta. Mas se pensarmos, isto acontece porque essa possibilidade nunca lhes é apresentada. A Juventude Socialista, já demonstrou que tem uma capacidade de luta enorme pelas causas que defende e nas quais acredita, e é desta forma que todos nós temos um papel fundamental na inversão do cenário apresentado. A nossa intervenção junto das associações juvenis, não é suficiente para a acabar com as mentes jovens desinteressadas. É certo que há mais população juvenil nas associações do que nas juventudes partidárias, mas se esses jovens fazem parte de uma associação, já têm um mínimo de pensamento cívico e a convivência em sociedade é notória. Apenas junto das escolas se pode chegar à grande massa juvenil. Aqui se apresenta uma batalha para esta estrutura. Não queremos que todos os jovens se tornem militantes, queremos apenas ter jovens preocupados e sensibilizados com o que os rodeia, capazes de dignificar Portugal, capazes de ir mais além. Não queremos vê-los todos a discutir política. Cada um encontrará a sua área e o seu papel enquanto parte integrante da sociedade portuguesa. Tudo isto não será possível sem um trabalho de base, proveniente das camadas mais jovens e dos primeiros anos de escola.
Para o Ensino Básico seria benéfico alargar a disciplina de Formação Cívica a 90 minutos semanais. E no Ensino Secundário, também 90 minutos semanais nos 3 anos, seriam um grande avanço e uma grande ajuda à reflexão dos jovens. Tendo sempre em conta que a carga horária semanal, não deve ser aumentada, pois já tem o seu grande peso. Aqui se impõe um desafio à Juventude Socialista. O desafio para contornar esta situação passa pela elucidação ao Ministério da Educação, daquilo com que nos deparamos diariamente nas escolas de todo o país. É necessário que em parceria com as juventudes partidárias e associações juvenis, cientes das necessidades dos jovens, o Ministério da Educação reconsidere a carga horária da disciplina de Formação Cívica no Ensino Básico, e pondere criar algo similar para o Ensino Secundário. Não queremos porém, que a situação actual da Formação Cívica, enquanto disciplina se mantenha. Será necessário criar um programa curricular, adaptado aos vários anos de escolaridade. Estas aulas são até aqui, maioritariamente desperdiçadas, contudo se for criado um programa de carácter obrigatório com conteúdos devidamente adaptados, ter-se-á um melhor aproveitamento. É algo que consideramos primordial na educação dos nossos jovens.
Assim a missão aqui apresentada à estrutura da Juventude Socialista é a articulação junto do Ministério da Educação, de programas curriculares escolares entre o 5º e o 12ºano, adequados à formação dos jovens enquanto cidadãos, para que um dia mais tarde nos possamos orgulhar de quem nos representa nos mais diversos sectores. Programas específicos, elaborados no âmbito da cidadania passando por temas como regras da sociedade, comportamentos cívicos, direitos e deveres, voluntariado, associativismo, política, entre tantos outros que contribuem para a abertura de novos horizontes nas mentes jovens.
Cremos que este desafio está à altura dos jovens que constituem esta estrutura. Afinal de contas os desafios da Educação são exigentes e extremamente complexos, mas acreditamos que o panorama de desinteresse juvenil pode ser contornado com a nossa ajuda. As apostas na educação são primordiais.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Natal, Brinquedos e a Crise

Tenho receio no que aqui vem, tenho receio que sejam feitas más interpretações. Mas como quem cala consente e eu não quero consentir, tenho que o dizer.
Este fim-de-semana fomos invadidos por publicidades constantes de "50% de desconto em todos os brinquedos" vindas directamente dos Hipermercados Continente. Poderíamos aceitar uma maior afluência aos hipermercados em questão, poderíamos aceitar que se adiantassem as listas de natal para cerca de mês e meio antes, mas não podemos aceitar a loucura! Sim é exactamente de loucura que se trata. Não é qualquer população que em menos de 3 horas depois da abertura do hipermercado, consegue esvaziar a maioria das prateleiras e transformar os corredores numa verdadeira feira. Não tendo nada contra as feiras, sabemos que são locais onde os produtos se expõem com pouco rigor e bastante desordenados, o que não é característico de hipermercados em dias normais. Aquilo que se passou no Hipermercado Continente de Cascais, foi um verdadeiro atentado aos brinquedos. Prateleiras vazias, carrinhos cheios. Falta de stock visível, caixas de pagamento cheias. O verdadeiro caos. Ninguém sabe o preço de nada, ninguém sabe onde está nada. O que interessa é comprar. Absolutamente idêntico a 10o gaivotas à procura de uma migalha. 50% são 50% mas não se tratando de descontos directos, há que ter o dinheiro para avançar de antemão. E onde anda esse dinheiro...?
Pergunto-me agora onde está realmente a crise?! Claro que temos que ter em conta que estamos no início do mês, com salários fresquinhos e subsídios de Natal a fervilhar. Mas justifica isso tamanha afluência, tamanha loucura, tamanha correria? A verdade é que muitos daqueles que levavam os carrinhos cheios, vão ter dificuldades em ter dinheiro para comer até ao resto do mês. Porque se assim não for, não sei onde anda a tal "crise económica". Crise em Portugal, temos sim. Mas além dos problemas económicos temos crise social e ideológica. E essa sim é assustadora e dificilmente terá um fim. O consumismo português é bastante notório, e quanto a isso não há crise que valha. Quando toca ao consumismo fácil e supérfluo, o português está em grande. Nem que seja preciso endividar-se até às costuras ou reduzir a alimentação por uns dias, o que importa é a aparência, o que importa é comprar. E se possível, ser visto a comprar! É o auge. Mas depois quando as câmaras o filmam, claro que tem que se lamentar. Somos uns tristes, estamos no fundo, vamos todos morrer à fome, é a tragédia! Mas esquecem-se de dizer que no dia anterior saíram do Continente cheios de brinquedos e fizeram gastos supérfluos. O português só está bem quando está mal.
Ainda quanto aos brinquedos, ao natal e à crise. Vejam só onde chegamos, para ser necessário andar à pancada por um brinquedo. Meus caros portugueses e leitores que apreciam estes desabafos, acham que perante o cenário económico de que tanto se fala, esta loucura é necessária? Ou será que a música do "Mundo encantado dos brinquedos" anda a encantar graúdos e não miúdos? Será que o grande problema é a crise económica? Ou será que o português é um gastador nato, um consumista que não sabe o significado de contenção? Ou será ainda que a ambição de ser superior ao outro é maior que a carteira? Tantas interrogações mas muito poucas respostas. A verdade nua e crua. Sim, pelo Natal a tradição diz que se dão presentes. Mas nesta altura não faz sentido a tradição ser superior ao poder de compra e ser superior ao próprio homem. Já os nossos avós nos ensinaram que o que conta é a intenção. Bem, mas acho que isso em Portugal não importa. É ver quem dá a melhor prenda, qual é a mais cara. E o resto fica para depois. Primeiro a imagem, depois a sobrevivência. Infelizmente não posso ser superior a mim própria, e não posso chegar aqui e instaurar a revolução da mentalidade. Mas posso, e isso ninguém me tira, expressar aqui para quem queira ver, esta indignação que o típico português me causa. Está dito.